domingo, 8 de junho de 2014

Justiça tenta expatriar garotos para a Noruega em caso que dura anos

Oficial de Justiça consegue acordo que pode encerrar disputa judicial de 08 anos

Briga por guarda de irmão completou oito anos. Pai e mãe de crianças fizeram acordo extraoficial

Rio - Enfim, o fim feliz. Ou ao menos por ora. Depois de oito anos de uma história para romancista nenhum por defeito -- com direito fugas internacionais, sequestros, batalhas judiciais em todas as instâncias, dois países envolvidos, esconderijos e dramas familiares --, neste sábado, após mais de oito horas de negociação, começada às 14h, chegaram ao um acordo ainda extraoficial, o norueguês Tommy Bless, 42, e a brasileira Julia Albuquerque, 40, -- pai e mãe dos adolescentes M., de 14 anos, e B., de 12.

Os dois ecidiram que vão parar de brigar na justiça pela guarda dos filhos, que ficarão no Brasil com a mãe e poderão, durante as férias e sempre que possível, visitar o pai na Noruega. "Ela pode ficar hospedada, se achar melhor, na minha casa", prometeu Tommy, diante das câmeras de TVs e da ex-mulher. Ela pediu, porém, que o acordo seja bem feito para que tenha a segurança de que não perderá mais seus filhos. "Não precisávamos disso", admitiu, com lágrimas nos olhos. "Vencemos", suspirou depois.

"Agora, os advogados de ambos sentarão ao longo da semana para negociar os termos. Em seguida, vamos apresentar à Justiça Federal e encerarmos com essa história", explica o advogado da brasileira, Mateus Terra. Renato Neves Tonini, advogado de Tommy, não quis falar com a imprensa. "Não tenho palavras, cara. Acho que agora, finalmente, vamos viver em paz", definiu o momento M., que em seguida foi levado pelos amigos para comemorar, gritando e cantando no quarto. Era o momento de festa deles.
Julia Albuquerque beija os filhos. Batalha pela guarda já dura mais de oito anosFoto: Márcio Mercante

A história começou a caminhar para o clímax na tarde deste sábado, quando dois oficiais de justiça e uma assistente social chegaram ao apartamento de Julia, um condomínio de classe média, no Pilares, com um mandado de busca e apreensão para levar os meninos até o pai, que os aguardava no Consulado da Noruega, no Centro do Rio, para depois embarcarem rumo ao país europeu. Os meninos resistiram. A Polícia Federal foi chamada. Os garotos diziam que não acompanhariam os oficiais.

"Não vou com eles. Eu não falo com meu pai há anos, porque ele não desiste de tirar a gente daqui. Eu vou ficar com a minha mãe", prometia o menino de 14 anos. O mais moço, de 12, disse que pedira ao pai uma semana antes para que chegassem a um acordo e que parasse de tentar tirá-los de casa. "Mas ele insiste. Não sei o que falar mais para ele", lamentava, triste, ainda sem saber que, dali a algumas horas, aquela tensão terminaria como ele desejava.

Expedida pela Justiça Federal, a ordem não deixava claro se os agentes poderiam ou não usar a força para cumprir a determinação judicial. A oficial à frente da ação decidiu então chamar o pai para convencer os filhos a o acompanhar pacificamente. Houve tensão, pois o mais velho não queria vê-lo. Um dos policiais comentou que se ele quisesse, os garotos seriam levados a força.

Cerca de 20 meninos, amigos dos irmãos, prometiam ajudar na resistência. Com cartazes pedindo pela permanência deles, os garotos cantavam um rap que compuseram, denunciando a "arbitrariedade" de não respeitar a vontade dos adolescentes. "Estamos aqui para apoiar o nosso amigo. Eles não querem ir e nós queremos que eles fiquem, ninguém tem que tirá-los a força do Brasil", defendia o estudante Pedro Engel, 15.

Já passava das 20h, quando, convencida pela mãe, os filhos toparam conversar com o pai. Se trancaram no quarto por cerca de 20 minutos. A conversa surtiu efeito. Dali, saiu com a decisão de que "é melhor fazer um acordo, em paz, e encerrar esse sofrimento para mim, para a Julia e para os nossos filhos", disse Tommy para os repórteres.

Os dois travavam uma guerra desde 2004, quando Tommy, já separado de Julia, decidiu levar os filhos para a Noruega. Na justiça, brigam desde 2006. Em 2012, depois de passar por todas as instâncias, o Supremo Tribunal Federal determinou que as crianças deveriam ser entregues ao pai. Embora tenha recorrido todas as vezes, Júlia vivia fugindo com os filhos dos mandados de busca e apreensão, pois acabava sempre derrotada. Contra ela e a favor de Tommy, a Advocacia-Geral da União.

O Estado entendia que, por ser o Brasil signatário da Convenção de Haia -- que determina que menores sejam devolvidos ao país de origem --, ela deveria entregar os filhos e lutar por eles lá na Noruega. "O nosso governo não entendia que o meu ex-marido havia sequestrado os meus filhos primeiro e que eu só os trouxe de volta, porque não recebi nenhum suporte", explica Julia.

As lágrimas que correram nos olhos dela ontem, depois que a Polícia Federal, os oficiais de justiça, os advogados e Tommy foram embora, eram de alívio. "Foi o pior dia até agora. Morreria se levassem meus filhos de mim. E hoje parecia que eu os perderia. Já chorei de desespero, mas, agora, é de alívio", desabafou, para em seguida encerrar: "Espero que seja mesmo o fim dessa triste novela."

InfoJus BRASIL: Com informações de "O Dia"

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