sexta-feira, 13 de junho de 2014

O curandeiro e o oficial de justiça

Texto extraído do site Globo Esporte

(Foto: Getty Images)

Entre todos os perigos enfrentados pelo Brasil no primeiro jogo da Copa do Mundo, ao fim e ao cabo acabamos percebendo que o mais solúvel era justamente o adversário do outro lado do campo. E olha que, como se suspeitava, durante o tempo inteiro ficou claro que a Croácia não era esta colherada de doce de leite que muitos incautos julgavam – desde o começo, o time de Niko Kovac armou-se de brio e partiu com aquele exército quadriculado para uma batalha na qual só tinha a ganhar.

Acontece que no horizonte da seleção brasileira e no céu rosado de Itaquera erguia-se outro vulto, de tamanho incalculável, que só vai se desconfigurar totalmente, ou se tornar ainda mais carrancudo, no dia 13 de julho. Porque o Brasil jogava, sobretudo, contra um rasgo de 64 anos que jamais cicatrizou, mas que nos últimos dias começou a latejar furiosamente. Foi este ESPECTRO que os jogadores miraram logo na saída do túnel e que lhes desencadeou aquela torrente de lágrimas e os tornou escravos do terror durante quase todo o primeiro tempo. A visão, esta que se tornou a melhor inimiga de Barbosa durante toda sua vida, é aterradora. Uma visão sugadora de espíritos.

Para praticamente qualquer seleção do mundo, jogar uma Copa do Mundo em seus domínios é motivo de felicidade e orgulho. Para o Brasil, também, mas é bem mais que isso. Porque é sobretudo o momento eternamente adiado e remoído de enfim quitar uma dívida não apenas com o país, mas com aquilo que depois de 1950 a seleção passou a representar para o mundo do futebol. O Brasil já conquistou cinco mundiais, e poderiam ser dez ou DOZE, mas sempre há 1950. E esta Copa do Mundo é a chance que talvez não se repita jamais de receber alta do psicanalista ou, em caso de fracasso, criar raízes no divã e passar o resto dos dias evitando descobrir que na verdade enxerga Ghiggia no papel de figura paterna. Nesta Copa do Mundo, não existem meios termos. Só um resultado afasta o Brasil do fracasso.


Por todo este dilema exposto, o Brasil entrou em campo contra a Croácia como quem abre a porta para o oficial de justiça. O Brasil financiou a decepção em 64 anos e chegou a hora de depositar a última parcela. Ou vai para o SPC das almas. E não há como não se solidarizar com aquela situação psíquica limítrofe que vivenciaram os jogadores, colocados no papel de avalistas da redenção. Nos próximos jogos, com a tensão já acomodada, é possível que a enxurrada de emoções estabilize momentaneamente. A partir das oitavas, no entanto, e sobretudo em uma final, só restará a Felipão, qual um curandeiro, providenciar compressas de ervas e invocar entidades enquanto tenta livrar da febre cada um dos jogadores, pois eles vão se deparar com imagens com as quais os humanos não conseguem lidar.

Fonte: http://globoesporte.globo.com/blog-do-bruxo/platb/2014/06/13/o-curandeiro-e-o-oficial-de-justica/

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