quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O metroviário e o oficial de Justiça

 
Essa é mais uma daquelas curiosas histórias que acontecem até com certa recorrência no dia a dia dos Oficiais de Justiça, não pelo fato em si, mas por ser inusitada.

Ás onze horas da manhã de uma quarta feira fria toquei o interfone do condomínio fechado e logo fui atendido pelo porteiro:

Pois não, Cidadão

Pejorativo, não? Mas, já estamos acostumados, isso é outra história. O consolo é que qualquer um que tocasse seria também um “Cidadão Pejorativo

Bom dia, casa 07, por favor. Gostaria de falar com o senhor Fulano de Tal

Podem entrar sinhô, a casa 7 tem interfone não...”

Entrei e caminhei a passos rápidos embalado por uma fina garoa que caia. Não pude deixar de pensar, durante o curto trajeto, na segurança dos condomínios por ai afora: como fora fácil entrar ali.

Assim que cheguei notei que a casa também não possuía campainha.

Toc, Toc, Toc

Abriu a porta uma senhora morena de meia idade com olhos de sono e movimentos lentíssimos:

Pois não

Bom dia, Por gentileza, meu nome é Valter, sou Oficial de Justiça e procuro Fulano de Tal, a senhora o conhece?

A feição da mulher mudou radicalmente em fração de segundos, como se um choque de 220 volts a sacudisse.

Oficial de Justiça???? Meu Deus, o que ele fez?”

A senhora o conhece? Ele mora aqui?

Ele é meu enteado, o pai dele está dormindo... vou chamar

Tudo bem senhora, eu aguardo

Apenas três minutos mais e surge no alto da escada, vindo do pavimento superior um senhor com cerca de 60 anos, com a mesma feição sonolenta com a qual a mulher se apresentara, mas já com movimentos rápidos e nervosos.

O que foi que meu filho fez?” perguntou ele ainda ajeitando sua calça e procurando acertar o braço na manga da camisa que teimava em escorregar.

Com a dispensa das formalidades que a urgência, por parte daquela família, pedia segui discorrendo sobre o teor do mandado. Era uma citação na qual o filho daquele senhor era chamado a apresentar sua defesa da acusação de depredar o patrimônio publico.

O tal “Fulano de Tal” havia emprestado a maestria de sua arte aos bancos de uma composição do metrô, nos quais gravou com o auxilio de um instrumento cortante, seu apelido em letras grandes. No entanto os seguranças do metropolitano, me parece que não mostraram sintonia com aquela explosão de talento,  resolveram conduzir o senhor “Fulano de Tal” a um Distrito Policial, no qual sua manifestação artística se transformou em um inquérito policial que ao chegar ao Fórum ganhou Status de Processo.

Durante minha explicação notei que o senhor fora transformando o seu nervosismo e irritação iniciais em tristeza e decepção. Ouvia a tudo quase calado, perguntando detalhes daqui e dali:

O senhor sabe que dia foi isso?  E que horas?

Tem identificação da composição?

Quando terminei, ele apenas me disse que não deixaria seu filho sair no dia seguinte e gostaria muito que eu entregasse a ele pessoalmente o “ofício” que trouxera. Lamentou muito pelo ocorrido, pediu desculpas por estar dormindo àquela hora, justificando que trabalhara a noite toda e que seu trabalho era muito árduo e difícil e que há mais de vinte anos trabalha com manutenção no horário da madrugada. Por fim pediu a sua esposa que buscasse seus documentos e mostrou a mim sua carteira funcional, onde mostrava que ele era Funcionário do Metrô de São Paulo:

Há vinte anos trabalho a madrugada toda consertando bancos que são depredados durante do dia”, disse ele com profunda tristeza.

Autor: Valter Lima
(autor do texto e não da depredação...) 
 
Fonte: ASSOJASP

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